Publicado por: Marcio | 14/06/2009

Transporte, integração e a construção de uma nação

The looooooong and (VERY) winding roads of Timor Leste

The looooooong and (VERY) winding roads of Timor Leste

Em um país que é um pouco maior do que Pernambuco, fico constantemente impressionado com a separação regional do Timor Leste. Só pelo sobrenome, as pessoas começam a dizer que ‘fulano é de Manatuto, citrano é de Viqueque’, e por aí vai. Esse é o lado inofensivo da coisa.

Uma das grandes tretas deste a independência (ou restauração da independência) é a divisão Leste-Oeste no Timor Leste. Uma colega comentou que, para ela, sendo do Oeste, é muito difícil trabalhar no Leste: começa da má-vontade em falar o Tetum com ela (em detrimento de um idioma local) e chega a total recusa em colaborar com pessoas do Oeste. Uma das razões da crise de 2006, que trouxe a ONU de volta, foi conflitos Leste-Oeste dentro da polícia e do exército, devido (dizem) à discriminação.

É uma situação extremamente injusta. É verdade que o ‘Oeste’ se integrou muito mais à ocupação indonésia, mas não é por causa da falta de patriotismo dos Timorenses desta parte: o Oeste do Timor Leste sofreu muito mais com a invasão indonésia. A grande maioria das barbaridades, desde 1975, foi deste lado do país. Enquanto o Oriente sofreu relativamente menos, inclusive devido à maior concentração das Falintil (braço armado do movimento de independência), que fugiu de Dili e do lado oeste ao ver que tinha mais chance de vencer no Leste.

Mas me parece que a divisão também tem forte relação com a falta de infraestrutura do Timor Leste – principalmente estradas e transporte. É simples entender: se não há comunicação entre regiões, como elas vão se entender, conhecer, conviver? É uma situação similar aos povoados indígenas isolados na Amazônia – eles se diferenciaram de todos os outros exatamente pela falta de contato com o mundo exterior.

Uma estrada fica assim depois de explodir uma bomba?

Uma estrada fica assim depois de explodir uma bomba?

Dizem que os últimos veículos das milícias indonésias, quando se retiraram depois da chegada das Forças de Paz Internacionais, eram tratores que destruíam o asfalto das estradas à medida que deixavam o Timor Leste. Obviamente, esse trabalho foi muito mais minucioso no lado oeste do que no leste. Para ser justo, também é verdade que os Indonésios construíram muito mais estradas do que os portugueses (coisa admitida pelos próprios portugueses).

Mas um país não se constrói de partes isoladas. Uma das poucas coisas que une o Brasil é a língua portuguesa, e por mais que ajam sotaques e expressões regionais, foi o contato entre as regiões que impediu que se tornassem coisas distintas (como o português de Portugal se tornou distinto do brasileiro, até a criação de acordos internacionais como a Reforma Ortográfica).

Transportes e comunicações são itens básicos na agenda de qualquer nação. Mas para o Timor Leste, que está começando ‘do zero’, é difícil priorizar com outras necessidades, como a construção de um judiciário independente, manutenção da segurança pública, saúde e combate à pobreza. É claro que existem relações transversais entre estas áreas, mas parece haver muita dificuldade (não só técnica, mas também política) em lidar com as ‘interrelações’ entre todos estes campos.

Conflito de Gerações

A nova geração dos timorenses, principalmente os que estão entre os 20 e 40, ganhou a oportunidade de viajar e trabalhar em diversas regiões do Timor Leste, o que lhes dá um ponto de vista privilegiado desta divisão – ou divisionismo – regional. Mas esta mesma geração sofre fortemente devido a tal divisão, entre aqueles que estavam relativamente confortáveis na ocupação indonésia e outros que ainda sofrem com outros tipos de divisão, de língua ou mesmo social (sim, existem ricos e pobres, mesmo aqui).

Mas esta mesma geração está sanduichada entre a atual classe dirigente, toda remanescente da luta pela independência, e a novíssima geração. Esta última, em formação, enfrenta novos desafios: não há mais os fantasmas da ocupação ou do colonialismo, mas persistem a pobreza e falta de perspectivia; a adoção de uma língua nacional e a construção de uma identidade do Timor Leste também são questões inacabadas, ainda que de simbolismo muito forte.

Tenho a sensação de que a construção de uma sociedade estável, aqui, é um projeto de no mínimo duas gerações (coisa de 60 anos). As gerações da parte de baixo do ‘sanduíche’ que descrevi terão o desafio de superar as contradições do modelo adotado desde 2002 – que possui muitos méritos, mas que não combateu, e às vezes reforçou, os inúmeros tipos de divisão que permeiam a sociedade timorense.


Respostas

  1. Como os meios de comunicação atual na formação de uma identidade nacional?
    Será que eles precisavam ganhar uma copa do mundo e aumentar a produção de telenovelas?

    • *atuam
      (pq não posso editar meus comentários? :( …)

    • É pra responder? ;-)


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.