
Poster do filme
Acabo de assistir ao Into the Wild, filme de Sean Penn baseado no livro do Jon Krakauer.
Muita vontade de ler o livro. Já li ‘No Ar Rarefeito’, dele, e gostei muito. Moldou muito do que penso sobre montanhismo e escalada. O curso de escalada apenas tornou concretos alguns desses pensamentos, mas também me mostrou que o debate é mais complexo do que eu pensei – não é uma ‘simples’ questão de pessoas provando a si mesmas que elas podem fazer algo (isso vem de uma discussão que tive com uma amiga sobre montanhismo, ainda em Londres).
‘Into the Wild’ é bem diferente. É sobre Chris McCandless, ou ‘Alex Supertramp’, um rapaz de classe alta que abandona tudo para viver como ‘hobo’ e, no final, vai para os confins do Alaska – onde morre, não se sabe ao certo se de fome (starvation) ou envenenado por uma raiz não-comestível.
A jornada do ‘Alex’ é uma busca, é claro, por felicidade – mas através da busca pela verdade e liberdade, que se concretizavam, para ele, na independência dos bens materiais e de relacionamentos com as pessoas. Ambas estas coisas culminariam em sua estadia solitária no Alaska. O filme mostra ‘Alex’ estabelecendo vários relacionamentos, profundos e com chances de se aprofundarem; mas a ‘obsessão’ de Alex (e que no fundo faz parte de seu ‘charme’ e personalidade) o levam a se afastar dessas pessoas, na busca inexorável por viajar ao Alaska e se embrenhar ‘Na natureza selvagem’ (título em português do livro).
Fiquei pensando nessa busca, e no que eu mesmo busco. Várias coisas me ocorreram, um pouco desconexas.
Em primeiro lugar, as relações entre as pessoas. A opção do ‘eremita’, de cortar as relações de uma pessoa com todas as outras, é clássica mas certamente polêmica. Toda relação é uma via de mão dupla, e seu rompimento tem conseqüências, seja unilateral ou em comum acordo.
Todas as pessoas que se encontram, na vida, estabelecem relacionamentos. Como metáfora, diria que algumas pessoas apenas se resvalam de levinho. Outras se dão as mãos, entrelaçam os dedos, se abraçam… Ou apenas fazem um carinho no rosto, e seguem seu caminho.
Como disse o poeta: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida.
Mas quando uma pessoa parte (some, muda de país, falece, não sei), toda essa rede de relações sente o rompimento. Nos casos mais drásticos, é como uma árvore sendo arrancada do solo com suas raízes, ou uma rede de arrasto raspando o fundo do oceano. Não importa o quanto se queira evitar traumas nesse rompimento, sempre há uma radicalidade (ou o corte de raízes, para seguir a metáfora anterior).
Me parece que ‘Alex’ via essa rede de relações como uma restrição a sua liberdade. O filme sugere que ele muda de opinião, ao rascunhar que “a felicidade só é real quando é partilhada (shared)”. Gostaria de saber se ele realmente escreveu isso, mas creio que vários filósofos escreveram que a última liberdade é aceitar dar a sua liberdade a outra(s) pessoa(s) – o que não deixa de soar a clichê.
Outra coisa que me ocorreu é a forma como ele buscou sua ‘felicidade’. No fundo, achei sua solução entre o ingênuo e o egoísta. Por um lado, levar uma vida simples e ‘natural’, por opção, pode parecer algo iluminado, mas também me parece haver algo de ofensivo frente às pessoas que não têm opção – porque a maioria das pessoas de rua não tem escolha. Por outro lado, apesar de todas as suas realizações como estudante de antropologia, história e dos problemas do mundo, ele não optou por uma vida que enfrentasse essas questões. Ele preferiu ficar sozinho. No final, não sei bem como a sua jornada de dois anos se relaciona à busca pela verdade que Thoreau e ele mesmo pregam (preciso ler o livro para ver isso – e Thoreau também). A vida ao natural é mais verdadeira?
Acho que o que me incomodou foi isso: me identifico com muita coisa na busca que Alex empreende, mas não me identifico com as escolhas que ele faz. Claro que imaginar o que ele faria se voltasse do Alaska é pura especulação, mas não imagino que ele largaria a vida de ‘hobo’ – o rompimento que ele faz no começo do filme/livro me parece definitivo. E a escolha de ‘hobo’ ou ‘supertramp’ simplesmente me parece um pouco ingênua.
Isso recai nas minhas escolhas. O que busco? O que quero? Onde estou deixando as relações que construí, e o que está acontecendo com elas?
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