Publicado por: Marcio | 12/07/2009

Soluços!

Bobagem pura. Mas não estou com cabeça nem com tempo de escrever (mais) coisa séria, então vai um ((nada a ver)) bem besta.

Ontem à noite, bem na hora de dormir, tive uma crise de soluços. Fiquei anos sem ter soluços, ou ao menos não me lembro de tê-los. Mas, de uns dois anos pra cá, de vez em quando tenho umas crises de soluço fortíssimas. Soluços daqueles que te fazem quase cair da cadeira! Constrangedor, pra dizer o mínimo.

Fiquei P* da vida, pq estava com sono e tentando dormir. Demorou mais de hora pra passar a crise. O troço era tão forte que eu praticamente pulava da cama a cada soluço.

OK, era ridículo. Tão ridículo que comecei até a rir de mim mesmo. Mas que coisa mais desagradável!

Hoje, fui à Wikipedia perguntar o que são soluços. Nunca havia pensado nisso antes – viva a Wikipedia! Descobri que se trata de um espasmo involuntário (sem novidade até aí) do diafragma, que interfere na respiração. Enfim, as causas e as ‘curas domésticas’ dão um livro – mas é legal ver que a Wikipedia em inglês fala que as domésticas são totalmente psicossomáticas. Beber três goles d’água? Beber do lado oposto do copo? Muito engraçado de ver, talvez o ridículo faça passar o soluço.

O mais interessante é ler que alguns cientistas teorizam que o soluço é um ‘resquício evolucionário’ do momento em que o ser humano era anfíbio, pois a mecânica do soluço é similar ao que animais como os sapos fazem quando aspiram ar ou água. Estarei virando um sapo?? Não devia ser o contrário?!?

Mas o que eu queria saber mesmo é por que, de repente, os meus soluços se tornaram verdadeiros ‘terremotos’ individuais? Brincadeira, sô…

Ninguém disse isso, mas fica evidente o raciocínio pela forma como acusações são lançadas de lado e outro do campo de batalha da política.

O governo atual do Timor-Leste está sendo acusado de corrupção e, pra usar um termo brazuca, tráfico de influências. Muita gente comenta de casos de corrupção, a torto e a direito. Do outro lado, praticamente toda a estrutura de corrupção, dizem os acusados, é herdada do governo anterior – para não falar das próprias práticas de sempre, tipo colocar pessoas próximas em todos os cargos possíveis (não só os de confiança). Mecanismos de combate à corrupção estão sendo implementados, casos estão sendo investigados, enfim…

Mas é fato que a percepção de corrupção, neste exato momento, é consideravelmente alta. O que me ocorre é uma impressão (impressão, nada mais) similar à situação da corrupção no Brasil que, dizem, também anda bem alta. Eu, particularmente, não acho que o problema no Brasil tenha piorado radicalmente nos últimos anos. O sistema todo é muito corrupto – isso sabe-se há anos.

A mudança, me parece, é na percepção da corrupção. Percepção que também é fruto de instrumentos mais adequados para combater a corrupção: muitos mais casos são flagrados, mas isso não significa que a situação anterior fosse ‘menos corrupta’. Fruto também da opção política de muita gente (principalmente jornalistas), que acha algumas pessoas (ou partidos) mais corruptas do que outras e fala isso abertamente.

Creio que esse é o caso, tanto no Brasil quanto no Timor-Leste. Existe muita (muita!) corrupção, inegável. Mas mecanismos institucionais para combater a corrupção estão sendo implementados a muito duras penas, nos dois países. São eficientes? Essa é outra pergunta, mas nossa percepção da corrupção precisa se adequar aos instrumentos que temos para detectá-la, que existem hoje em maior número do que antes. Não dá pra ter uma memória assim tão curta e considerar o escândalo de hoje pior do que o de ontem – especialmente quando ele surge no gramado dos outros. E também não há de negar que criar mecanismos contra corrupção já é em si um ato político.

Corrupção e estabilidade

“Corrupção é o porque da nossa vitória”, é a frase de um ‘lobista’ no filme ‘Syriana’. O veneno da citação é implicar que a corrupção mantém a situação confortável para alguns poucos, assim como impede qualquer mudança, progressista ou não, para outras partes da sociedade que diminua os privilégios dos poderosos. Em teoria, é possível imaginar que se use a corrupção (tráfico de influências, conluio, etc.) para ‘boas causas’, mas isso tornaria tal corrupção ‘perdoável’?

Francamente, tenho a impressão de que o Governo Brasileiro atual é tão corrupto quanto o anterior. Mas acho inegável que este governo foi mais progressista (não muito, mas um pouco mais) do que o anterior. Mas isso não torna a corrupção atual mais ou menos grave do que a de antes.

Creio que esse é o preço que se paga pela opção política ‘reformista’, em contraponto à opção ‘revolucionária’. Ao optar pela reforma, necessariamente se aceitam algumas ‘regras do jogo’ que o revolucionário simplesmente descartaria. É possível mudar tais regras, com tempo, apoio e perseverança, mas o reformista precisa aceitá-las por um considerável período. Não vou defender aqui um lado ou o outro, mas aponto isto como uma constatação.

Esse é o dilema que vivem os governos brasileiro e timorense. Enquanto trabalham, por dentro, para reformar um sistema com inúmeros problemas e muita corrupção, é preciso ‘saber jogar’ de acordo com as regras do momento – inclusive convivendo com um considerável nível de corrupção. Os inimigos políticos se aproveitam dessa aparente contradição, sem falar na memória curta da população e da ânsia de alguns jornalistas em soltar qualquer bomba a qualquer momento que garanta uma boa manchete.

Mas não podemos nos deixar enganar: corrupção é, no mínimo, desvio de finalidade. É dinheiro que deveria ser gasto de maneira construtiva, mas não é. Em última instância, é o que torna qualquer disputa, política ou não, injusta – pois dá vantagens a um lado e acaba com a credibilidade ‘do jogo’. Acredito que pode ser um fator de estabilidade – no sentido conservador da palavra, pois conserva as coisas, principalmente as desigualdades, como estão. Portanto, é o tipo de estabilidade que países como o Brasil e o Timor Leste não precisam.

Publicado por: Marcio | 14/06/2009

Dica de Leitura

Capa do livro

Capa do livro

Antes que eu esqueça: li A Ilha das Trevas, do jornalista português José Rodrigues dos Santos.

Ele reúne, de forma narrativa/romanceada, relatos de todas as fases da ocupação indonésia do Timor Leste – desde as movimentações pela independência após a Revolução dos Cravos e a Guerra Civil, até a restauração da independência, em 2002 – passando pela invasão, os massacres e o Referendo de 1999.

É uma boa pedida para ter um idéia, de forma leve, do absurdo que os Timorenses viveram nesses 27 anos. Ajuda a dar um desconto, também ;-).

Obs: obrigado à Dina (Tina Isabel? ;-) ), pelo empréstimo!

The looooooong and (VERY) winding roads of Timor Leste

The looooooong and (VERY) winding roads of Timor Leste

Em um país que é um pouco maior do que Pernambuco, fico constantemente impressionado com a separação regional do Timor Leste. Só pelo sobrenome, as pessoas começam a dizer que ‘fulano é de Manatuto, citrano é de Viqueque’, e por aí vai. Esse é o lado inofensivo da coisa.

Uma das grandes tretas deste a independência (ou restauração da independência) é a divisão Leste-Oeste no Timor Leste. Uma colega comentou que, para ela, sendo do Oeste, é muito difícil trabalhar no Leste: começa da má-vontade em falar o Tetum com ela (em detrimento de um idioma local) e chega a total recusa em colaborar com pessoas do Oeste. Uma das razões da crise de 2006, que trouxe a ONU de volta, foi conflitos Leste-Oeste dentro da polícia e do exército, devido (dizem) à discriminação.

É uma situação extremamente injusta. É verdade que o ‘Oeste’ se integrou muito mais à ocupação indonésia, mas não é por causa da falta de patriotismo dos Timorenses desta parte: o Oeste do Timor Leste sofreu muito mais com a invasão indonésia. A grande maioria das barbaridades, desde 1975, foi deste lado do país. Enquanto o Oriente sofreu relativamente menos, inclusive devido à maior concentração das Falintil (braço armado do movimento de independência), que fugiu de Dili e do lado oeste ao ver que tinha mais chance de vencer no Leste.

Mas me parece que a divisão também tem forte relação com a falta de infraestrutura do Timor Leste – principalmente estradas e transporte. É simples entender: se não há comunicação entre regiões, como elas vão se entender, conhecer, conviver? É uma situação similar aos povoados indígenas isolados na Amazônia – eles se diferenciaram de todos os outros exatamente pela falta de contato com o mundo exterior.

Uma estrada fica assim depois de explodir uma bomba?

Uma estrada fica assim depois de explodir uma bomba?

Dizem que os últimos veículos das milícias indonésias, quando se retiraram depois da chegada das Forças de Paz Internacionais, eram tratores que destruíam o asfalto das estradas à medida que deixavam o Timor Leste. Obviamente, esse trabalho foi muito mais minucioso no lado oeste do que no leste. Para ser justo, também é verdade que os Indonésios construíram muito mais estradas do que os portugueses (coisa admitida pelos próprios portugueses).

Mas um país não se constrói de partes isoladas. Uma das poucas coisas que une o Brasil é a língua portuguesa, e por mais que ajam sotaques e expressões regionais, foi o contato entre as regiões que impediu que se tornassem coisas distintas (como o português de Portugal se tornou distinto do brasileiro, até a criação de acordos internacionais como a Reforma Ortográfica).

Transportes e comunicações são itens básicos na agenda de qualquer nação. Mas para o Timor Leste, que está começando ‘do zero’, é difícil priorizar com outras necessidades, como a construção de um judiciário independente, manutenção da segurança pública, saúde e combate à pobreza. É claro que existem relações transversais entre estas áreas, mas parece haver muita dificuldade (não só técnica, mas também política) em lidar com as ‘interrelações’ entre todos estes campos.

Conflito de Gerações

A nova geração dos timorenses, principalmente os que estão entre os 20 e 40, ganhou a oportunidade de viajar e trabalhar em diversas regiões do Timor Leste, o que lhes dá um ponto de vista privilegiado desta divisão – ou divisionismo – regional. Mas esta mesma geração sofre fortemente devido a tal divisão, entre aqueles que estavam relativamente confortáveis na ocupação indonésia e outros que ainda sofrem com outros tipos de divisão, de língua ou mesmo social (sim, existem ricos e pobres, mesmo aqui).

Mas esta mesma geração está sanduichada entre a atual classe dirigente, toda remanescente da luta pela independência, e a novíssima geração. Esta última, em formação, enfrenta novos desafios: não há mais os fantasmas da ocupação ou do colonialismo, mas persistem a pobreza e falta de perspectivia; a adoção de uma língua nacional e a construção de uma identidade do Timor Leste também são questões inacabadas, ainda que de simbolismo muito forte.

Tenho a sensação de que a construção de uma sociedade estável, aqui, é um projeto de no mínimo duas gerações (coisa de 60 anos). As gerações da parte de baixo do ‘sanduíche’ que descrevi terão o desafio de superar as contradições do modelo adotado desde 2002 – que possui muitos méritos, mas que não combateu, e às vezes reforçou, os inúmeros tipos de divisão que permeiam a sociedade timorense.

Publicado por: Marcio | 08/06/2009

Resistindo… ao desenvolvimento

Li em alguns documentos (Indonesia Today, International Crisis Group) que o Timor Leste possui uma sociedade altamente ‘militarizada’. É um conceito duro de entender.

Este documentos se referem à forma como a sociedade timorense se acostumou com uma relação de antagonismo e resistência organizada, quase paramilitar – primeiro contra os colonizadores portugueses, depois contra a ocupação indonésia, aí verdadeiramente militar.

Achei curioso, mas muita gente tem relacionado os problemas entre os esforços de desenvolvimento do Timor com essa mentalidade de ‘resistência contra os opressores’. Nessa lógica, o timorense ficou tão acostumado a resistir contra colonizadores/invasores/estrangeiros, que não consegue cooperar com os ‘novos estrangeiros’, que estão tentando ajudar.

A imagem é de um dia festivo, mas o povo anda assim por aí.

A imagem é de um dia festivo, mas o povo anda assim por aí.

Um exemplo muito estranho que ouvi estes dias: não existem calçadas, então todo mundo anda na rua. Quando vem um carro pela rua, por mais que se buzine e peça licença, os timorenses demoram a dar passagem – quando dão. Muita gente diz que isso vem da época da invasão, quando as pessoas faziam corpo mole nas ruas para impedir que os carros da polícia e do exército indonésios se movessem com agilidade.

De qualquer forma, me ocorre que, no final das contas, as agências internacionais que hoje estão no Timor Leste talvez não sejam tão diferentes assim de um colonizador para o timorense comum. Essa estranheza, essa falta de cooperação frente a qualquer estrangeiro, indica que a comunidade internacional ainda tem que provar ao timorense que está aqui para ajudar. Acho que houve progresso nessa relação, mas ainda há muito o que fazer.

Grupos de Artes Marciais

Um aspecto literalmente militarizado da juventude timorense são os chamados Grupos de Artes Marciais, que na verdade são gangues, aos quais boa parte dos jovens pertence. Metade desses grupos surgiu de movimentos de resistência à invasão. A outra metade foi criada por estímulo do serviço de inteligência da Indonésia, como forma de se contrapor aos outros grupos.

Os indonésios se foram, mas os grupos ficaram. Boa parte deles age como uma rede de ‘proteção’ mútua – se eu tenho um problema, eles vão me ajudar, mas vou ter de ajudá-los quando eles chamarem. É que nem aquele oficial pedindo propina no ‘Tropa de Elite’: “Você tem que me ajudar a te ajudar”.

A visita do Jackie Chan foi estratégica para os grupos de artes marciais. Photo by UNMIT.

O Jackie Chan veio para tentar influenciar os grupos de artes marciais. Photo by UNMIT.

Os grupos de artes marciais têm fortes ligações com o sistema político, e são alguns dos principais agentes da violência em todas as crises dos últimos anos, em geral lutando uns contra os outros. Não me parece haver um problema tão grande (ainda que exista) ligando estas gangues a crime organizado (tráfico, extorsão…), mas a força desses grupos é considerada possivelmente maior do que a da própria PNTL (Polícia Nacional do Timor Leste) – ou seja, em caso de crise, a PNTL pode não conseguir segurar a bronca.

Uma coisa que sustenta estes grupos, até hoje, é a própria pobreza do Timor Leste. Sem emprego ou estudo, as redes de proteção das gangues são um caminho natural para os jovens – ou seja, a mesma coisa que qualquer gangue em qualquer lugar do mundo, que floresce na ausência do Estado.

Essas gangues surgiram de uma forma militarista de organização da sociedade, e hoje estão à beira de se tornarem verdadeiros estados paralelos em conflito com o oficial. Como mudar isso? Não sei se é uma simples questão de dinheiro no bolso e criança na escola, mas sem dúvida que isso é um passo importante.

Publicado por: Marcio | 31/05/2009

Um outro tipo de pobreza

Duas ‘referências’ me bateram na cabeça, aqui. Uma é uma fala de um personagem do filme ‘Enemy at the Gates’ (Círculo de Fogo, no Brasil): “Neste mundo, mesmo um mundo soviético, sempre haverá ricos e pobres. Ricos em dons, pobres em dons. Ricos no amor, pobres no amor”. Outra é a famosa ‘multidimensionalidade’ da pobreza, como diz Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e ex-comissária de Direitos Humanos da ONU (inspirada em muitos outros, como Amartya Sen…).

O Timor Leste possui um orçamento na casa das centenas de milhões de dólares (mais de 800 milhões em 2008, se não me engano). Para quem acompanha economia em um país grande ou no nível mundial, isso não é nada. Mas o fato é que, no último ano fiscal, o governo só conseguiu gastar 55% desse dinheiro. Aliado a muitos comentários que ouvi (de pessoas que sabem do que estão falando) de que o governo ‘tem muito dinheiro’, fica a impressão de que a pobreza financeira, no momento, é o menor dos problemas do Timor Leste.

Uma casa típica

Uma casa típica

Recursos, conhecimento, tecnologia, habilidades, organização. Sem estas coisas, mesmo que haja dinheiro, é muito difícil fazer acontecer algo para mudar o cenário de pobreza deste país.

Não é de admirar que uma ênfase muito grande do trabalho, aqui, é de ‘capacity-building’. Mas este é um trabalho de longo prazo, e existem muitas necessidades de curtíssimo prazo no momento. Para falar só de duas: estradas e energia elétrica. Aparentemente, há dinheiro, mas falta mão de obra especializada, materiais…

Outro exemplo: encontrei uma veterinária do Ministério da Agricultura, especialista em zoonozes. Ela me comentou que existem apenas outros 10 veterinários treinados no Timor Leste, um país essencialmente agrário, cuja alimentação dependente de aves, vacas, búfalos, bodes e porcos (e cães, em alguns distritos) criados em casa. O governo (e a ONU) morre de medo de que a gripe aviária (e também a suína, agora) chegue ao Timor.

Acho que esse é um bom exemplo para as pessoas entenderem que a pobreza é mais complicada do que a falta de dinheiro. É clichê, mas não dá pra deixar de dizer: para enfrentar a pobreza, é preciso atuar em várias frentes. Dinheiro é importante, mas não resolve tudo. Educação é uma frente importante, mas também não se pode esquecer do curto prazo, das pessoas que precisam sobreviver até que as políticas de longo prazo se façam sentir.

Publicado por: Marcio | 24/05/2009

E o ‘Timorensão’ de Futebol?

Nos últimos 10, 15 anos, cultivei uma relação de adoração ao futebol que não tive nos anos anteriores da minha vida. Boa parte disso se deve ao fato de encontrar gente com a qual era possível cultivar um gosto comum ao futebol, escapando daquela separação quase classista da adolescência, entre a ‘turma do esporte’ e a ‘turma dos nerds’. Como sou muito ruim de bola, eu estive naturalmente sempre neste última.

Mas enfim descobri que o fato d’eu ser um perna de pau, com o qual já me conformei, não me impede de apreciar futebol. Não me impede de ser mais um dos 170 milhões de pretensos técnicos da Seleção Brasileira, nem de entrar em batalhas verbais com os torcedores de um clube que não seja o meu (mas apenas as verbais, claro).

Tudo isso me fez olhar o futebol de forma muito particular, aqui no Timor Leste. É nítido que as pessoas gostam: camisas do Brasil, Portugal e de clubes famosos estão em toda a parte. Algumas que me lembro: Real Madrid, Milan, Chelsea, Barcelona… São, aliás, os grandes clubes de sempre. As ‘peladas’ são constantes e influenciam no dia de trabalho: muita gente ‘foge’ às quatro da tarde (note-se, antes do expediente acabar) pra ir pro campinho, espantar as vacas e bodes e bater aquele futebolzinho básico.

Sede da Federação de Futebol do Timor Leste, em Dili

Sede da Federação de Futebol do Timor Leste, em Dili

Mas acaba aí. A organização é quase nula e, com a exceção de um ou dois clubes em Dili e Baucau (a segunda maior cidade), praticamente não há futebol organizado. Aliás, fico imaginando qual é o trabalho da grande FFTL – Federação de Futebol de Timor Leste.

A seleção timorense jogou uma pré-pré-pré-eliminatória da Copa do Mundo (massacrada em dois jogos), mas foi quase suspensa da AFC (Asian Footbal Confederation, a Conmebol da Ásia) por não participar de outras competições oficiais há mais de dois anos. Não há estádios de futebol com condições de receber jogos oficiais, e, quando joga, a seleção timorense vai à casa do adversário ou a um campo neutro (veja a página do Timor no site na FIFA).

Tudo isso, me parece convergir com uma convicção que desenvolvi nos últimos anos. O futebol, de verdade, é aquele que se pratica em/entre clubes organizados, de preferência profissionais. O resto é amadorismo ou diversão. Claro, nessa linha dá até pra questionar o quão ‘profissional’ é o futebol brasileiro. Mas quero dizer que é preciso um nível de vitalidade e organização para que o esporte se desenvolva.

Futebol de seleção é diversão. Não é futebol, no autêntico sentido do termo. Não acredito que a melhor seleção do mundo (seja a Itália, campeã da Copa, Espanha, campeã européia, Brasil ou Argentina) conseguiria vencer os melhores clubes do mundo, à exceção de lances de muita sorte. Claro que o futebol é a tal ‘caixinha de surpresas’, mas não é uma caixa sem fundo.

É o ambiente competitivo e apaixonado dos clubes que força o desenvolvimento do esporte. O futebol inglês não seria o que é sem rivalidades como Liverpool FC X Manchester United ou Arsenal X Chelsea. Nem o italiano sem o Inter X Milan, o espanhol sem Real Madrid X Barcelona. Que dizer do Brasil sem o Fla-Flu, Corinthians X Palmeiras, Santos X São Paulo?

Hoje, o futebol no Timor não passa de diversão – várzea, brincadeira, coisa de criança. Pode ser mais do que isso? Claro, mas é preciso um nível de organização que não há em diversas áreas mais importantes para o desenvolvimento do país.

Imagina, um dia, conseguir ver um jogo da Primeira Divisão do Campeonato Timorense de Futebol?

Publicado por: Marcio | 03/05/2009

Into the wild

Poster do filme de mesmo título

Poster do filme

Acabo de assistir ao Into the Wild, filme de Sean Penn baseado no livro do Jon Krakauer.

Muita vontade de ler o livro. Já li No Ar Rarefeito, dele, e gostei muito. Moldou muito do que penso sobre montanhismo e escalada. O curso de escalada apenas tornou concretos alguns desses pensamentos, mas também me mostrou que o debate é mais complexo do que eu pensei – não é uma ‘simples’ questão de pessoas provando a si mesmas que elas podem fazer algo (isso vem de uma discussão que tive com uma amiga sobre montanhismo, ainda em Londres).

Into the Wild’ é bem diferente. É sobre Chris McCandless, ou ‘Alex Supertramp’, um rapaz de classe alta que abandona tudo para viver como ‘hobo’ e, no final, vai para os confins do Alaska – onde morre, não se sabe ao certo se de fome (starvation) ou envenenado por uma raiz não-comestível.

A jornada do ‘Alex’ é uma busca, é claro, por felicidade – mas através da busca pela verdade e liberdade, que se concretizavam, para ele, na independência dos bens materiais e de relacionamentos com as pessoas. Ambas estas coisas culminariam em sua estadia solitária no Alaska. O filme mostra ‘Alex’ estabelecendo vários relacionamentos, profundos e com chances de se aprofundarem; mas a ‘obsessão’ de Alex (e que no fundo faz parte de seu ‘charme’ e personalidade) o levam a se afastar dessas pessoas, na busca inexorável por viajar ao Alaska e se embrenhar ‘Na natureza selvagem’ (título em português do livro).

Fiquei pensando nessa busca, e no que eu mesmo busco. Várias coisas me ocorreram, um pouco desconexas.

Em primeiro lugar, as relações entre as pessoas. A opção do ‘eremita’, de cortar as relações de uma pessoa com todas as outras, é clássica mas certamente polêmica. Toda relação é uma via de mão dupla, e seu rompimento tem conseqüências, seja unilateral ou em comum acordo.

Todas as pessoas que se encontram, na vida, estabelecem relacionamentos. Como metáfora, diria que algumas pessoas apenas se resvalam de levinho. Outras se dão as mãos, entrelaçam os dedos, se abraçam… Ou apenas fazem um carinho no rosto, e seguem seu caminho.

Como disse o poeta: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida.

Mas quando uma pessoa parte (some, muda de país, falece, não sei), toda essa rede de relações sente o rompimento. Nos casos mais drásticos, é como uma árvore sendo arrancada do solo com suas raízes, ou uma rede de arrasto raspando o fundo do oceano. Não importa o quanto se queira evitar traumas nesse rompimento, sempre há uma radicalidade (ou o corte de raízes, para seguir a metáfora anterior).

Me parece que ‘Alex’ via essa rede de relações como uma restrição a sua liberdade. O filme sugere que ele muda de opinião, ao rascunhar que “a felicidade só é real quando é partilhada (shared)”. Gostaria de saber se ele realmente escreveu isso, mas creio que vários filósofos escreveram que a última liberdade é aceitar dar a sua liberdade a outra(s) pessoa(s) – o que não deixa de soar a clichê.

Outra coisa que me ocorreu é a forma como ele buscou sua ‘felicidade’. No fundo, achei sua solução entre o ingênuo e o egoísta. Por um lado, levar uma vida simples e ‘natural’, por opção, pode parecer algo iluminado, mas também me parece haver algo de ofensivo frente às pessoas que não têm opção – porque a maioria das pessoas de rua não tem escolha. Por outro lado, apesar de todas as suas realizações como estudante de antropologia, história e dos problemas do mundo, ele não optou por uma vida que enfrentasse essas questões. Ele preferiu ficar sozinho. No final, não sei bem como a sua jornada de dois anos se relaciona à busca pela verdade que Thoreau e ele mesmo pregam (preciso ler o livro para ver isso – e Thoreau também). A vida ao natural é mais verdadeira?

Acho que o que me incomodou foi isso: me identifico com muita coisa na busca que Alex empreende, mas não me identifico com as escolhas que ele faz. Claro que imaginar o que ele faria se voltasse do Alaska é pura especulação, mas não imagino que ele largaria a vida de ‘hobo’ – o rompimento que ele faz no começo do filme/livro me parece definitivo. E a escolha de ‘hobo’ ou ‘supertramp’ simplesmente me parece um pouco ingênua.

Isso recai nas minhas escolhas. O que busco? O que quero? Onde estou deixando as relações que construí, e o que está acontecendo com elas?

Publicado por: Marcio | 03/05/2009

Fotos no Facebook

Perdão aos entusiastas do Orkut, mas prefiro a forma como o FB lida com as fotos…

Pra adiantar o serviço e facilitar aos que não estão no Facebook, coloco aqui os links para as fotos que andei por lá colocando:

Férias em Bali!

Galeria do Timor

Curso de Escalada – CBM2008

Caverna do Diabo

Fotos sortidas da Europa

Buenos Aires

Intervozes

Fotos velhas que achei aqui

Publicado por: Marcio | 22/04/2009

We will not go down

Depois de muito tempo, volto a atualizar o blog. Uma das razões da interrupção é um período de férias em Bali, mas isso fica para outro post.

Ouvi esta música pela primeira vez na Rádio Timor Leste, e fiquei intrigado. http://www.michaelheart.com/Song_for_Gaza.html

Sendo bem franco, musicalmente, não tem nada de mais. É um Creed/Calling genérico, de um tipo de música que esteve insuportavelmente na moda nos últimos anos.

Mas é sobre a guerra na Faixa de Gaza.

Segundo o autor, Michael Hart (nome artístico, pois ele é de ascendência árabe), a música foi muito usada em protestos e marchas contra as ações do exército de Israel em Gaza. Como é bem-feita e gostosa de ouvir, imagino o MEGA sucesso que foi esta música, especialmente nos Estados Unidos e Europa. Ainda mais com versos como este:

We will not go down
in the night
without a fight

Eu sei que está tarde para escrever editorial sobre a Guerra em Gaza, mas é difícil resistir.

Era difícil não se comover com o drama em Gaza (que continua, aliás). E a imagem da resistência palestina é também muito forte, atraindo aquela solidariedade aos povos oprimidos, que ressoa tão forte mundo afora. A música reflete isso, com uma letra que reflete o ponto de vista de quem estava lá, levando artilharia na cabeça.

Eu me pergunto se o conflito árabe-israelense pode ser simplificado dessa forma. Em muitos momentos, acho que não. Mas, emocionalmente, os momentos em que tal conflito parece pura opressão contra os palestinos são muito fortes.

A emoção pode nos levar a fazer muita bobagem, e em momentos de conflito isso se agrava. Mas não dá para deixar a emoção de lado. A compaixão e vontade para a resistência que esse conflito desperta, e que essa música sintetiza, precisam ser canalizados de forma construtiva, para quebrar o ciclo de violência. Como fazer isso? Essa é a grande pergunta. Não acho que essa música contribua, mas ela certamente fortalece uma opinião crescente de que o absurdo chegou a um nível intolerável.

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